“E eu não tenho medo de morrer,
A qualquer hora pode acontecer, eu não me importo.
Porque eu deveria ter medo de morrer?
Não há razão para isso,
Você tem que ir algum dia.”
- The Great Gig in the Sky, Pink Floyd
Eu tenho medo de morrer.
Não sei se medo é a melhor palavra, mas é a única que me ocorre no momento. Medo do que me espera, talvez. Ou medo do que não me espera. Medo do nada. Não da inexistência de algo “do outro lado”, mas sim da redução da minha existência neste lado a nada.
O “mundo cão” em que vivemos já possui uma habilidade especial de nos generalizar no dia-a-dia. Um esforço para nos reduzir à insignificância. De certo modo lutamos para fazermos jus à nossa existência neste planeta - existência essa que nem sabemos se tem sentido ou não. Queremos ser notados, escrever nosso nome na história e de alguma forma sermos lembrados. Todas essas formas de prolongar ao máximo nossa existência para além da putrefação da carne.
Talvez “existência” não seja a melhor palavra também, mas sim a “boa e velha” sobrevivência. Se já não bastassem a força da gravidade que nos mantém “pressionados contra o chão” e o próprio ar que nos corrói as entranhas desde o momento em que deixamos o ventre materno, as situações a que somos submetidos no cotidiano nos pisoteia e bota nossos nervos de aço à prova, em uma verdadeira versão moderna e artificial da seleção natural. Sobrevivemos para que, afinal? Por que não simplesmente nos deitamos e esperamos a morte chegar? Por que não simplesmente tiramos a nossa própria vida? Muitas pessoas dizem temer a morte devido à separação dos seus entes queridos. Um pouco tolo, pois se não se garante “a luz no fim do túnel”, para que se preocupar com a sua cor?
Mas, enfim, por que a grande maioria das pessoas se convence de que vale a pena viver? Se a existência é penosa para homens e mulheres, ricos e pobres, raposas e jacarés, por que não simplesmente abdicamos de sua provação? Mais uma vez o medo da morte está presente, mas não sozinho. Existe também a curiosidade humana em viver a vida para descobrir o que ela significa, para tentar decifrá-la e provar do que os que “já se foram” antes tentaram definir – e mesmo assim, acredito ser impossível chegar a uma conclusão una. Afinal, não faz parte da natureza humana deixar mistérios sem resolução.
Tenho medo da morte como tenho medo da vida. Mais que o medo da morte, prevalece o medo da minha fraqueza vil, do meu orgulho e do meu egoísmo, que de certa forma me fazem morrer por dentro. Não temo a separação, que é inevitável, mas temo os momentos que deixo passar despercebidos e as muitas situações em que mino consciente e inconscientemente as oportunidades de criação de momentos por preguiça e por sórdida indisposição de espírito. Porque se ainda não conseguimos decifrar a existência, e é bem provável que nem cheguemos perto de termos sucesso nessa busca, o mais próximo que chegamos de seu sentido é pelas experiências que nos fazem sentir que estamos vivos.
Eu tenho medo de não viver.
Aí que você conseguiu explicar pra mim o que eu tava tentando explicar ha anos! Assim mesmo. (:
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